O projeto mais ambicioso da Canonical para transformar a arquitetura do seu sistema operacional de mesa está oficialmente de volta à ativa. Nesta quarta-feira (28), Jon Seager, vice-presidente de engenharia do Ubuntu na Canonical, anunciou no Ubuntu Discourse a retomada acelerada do Ubuntu Core Desktop — a variante imutável, transacional e 100% baseada em pacotes Snap do Ubuntu.

Apresentado originalmente em maio de 2023 como uma prévia para desenvolvedores que deveria estrear junto ao ciclo 24.04 LTS, o projeto acabou entrando em um longo período de dormência a partir de 2024. Agora, uma nova equipe multifuncional foi montada dentro da Canonical com a missão de reestruturar a base técnica do sistema sobre o core26 e disponibilizar imagens diárias (daily builds) durante o ciclo de desenvolvimento do Ubuntu 27.04.

O Ubuntu tradicional com pacotes .deb não vai acabar: A Canonical fez questão de reforçar que o Ubuntu Desktop clássico — baseado em pacotes .deb e apt — continuará existindo e sendo mantido normalmente. No entanto, a visão de longo prazo declarada por Jon Seager é que a arquitetura do Ubuntu Core amadureça até se tornar a experiência padrão do Ubuntu tanto no desktop quanto no data center e em dispositivos de borda (edge).


Por que a prévia de 2023 parou — e o que muda na nova arquitetura

Diferente de outras distribuições Linux imutáveis populares, como o Fedora Silverblue (baseado em ostree) ou o Vanilla OS, a proposta do Ubuntu Core não se limita a tornar a árvore raiz (/) somente leitura: todo o sistema operacional é composto por pacotes Snap estritamente confinados e verificados criptograficamente. Isso inclui o bootloader, o kernel Linux, os daemons de espaço de usuário, o ambiente gráfico e todas as aplicações.

Segundo Jon Seager, a prévia lançada em 2023 cumpriu seu papel como prova de conceito, mas falhou em entregar a visão real de modularidade que o projeto exigia.

No Ubuntu Core Desktop, o kernel, o ambiente gráfico e as aplicações operam como Snaps independentes com atualizações transacionais.

Na implementação de 2023, para conseguir colocar uma imagem funcional no ar rapidamente, a equipe substituiu o pacote base core22 por um base snap alternativo e monolítico. Esse único bloco continha o gerenciador de login GDM, todo o ambiente GNOME e, nas primeiras versões, até mesmo o navegador Firefox embutido. Na prática, qualquer alteração em um componente exigia reconstruir a imagem inteira do sistema base — anulando a principal vantagem do modelo de Snaps compostos sobre sistemas imutáveis baseados em imagem única.

Na nova fase que prepara terreno para o Ubuntu 27.04, a prioridade número um da engenharia é desmembrar o ambiente desktop em módulos independentes com interfaces Snap bem definidas:

  • Independência de componentes: Gerenciador de exibição (GDM ou SDDM), ambiente de área de trabalho, servidores de áudio/multimídia (PipeWire) e pilha de rede passam a conversar apenas por meio de interfaces agnósticas de implementação;
  • Atualizações granulares sem reconstrução de imagem: Cada peça do desktop pode evoluir e receber patches de segurança individualmente, mantendo o rollback transacional caso uma atualização apresente regressão;
  • Parceria renovada para o KDE Plasma: A Canonical retomou a colaboração direta com a enioka Haute Couture e com a equipe do KDE Neon Core. O objetivo é garantir que o KDE Plasma (via SDDM) funcione como cidadão de primeira classe na nova base core26, impedindo que a arquitetura crie acoplamento exclusivo com o ecossistema GNOME.

Os 3 casos de uso que vão guiar o ciclo 27.04

Para evitar tentar resolver todos os problemas do desktop Linux de uma só vez, a equipe do Ubuntu Core Desktop estruturou o roteiro técnico do ciclo 27.04 em torno de três perfis reais de utilização. Cada um deles foi escolhido para estressar uma parte específica do confinamento estrito do sistema.

1. Máquinas focadas em navegador (Browser-centric)

Para fluxos de trabalho pessoais e corporativos que dependem quase inteiramente de aplicações web e ferramentas baseadas em Electron, o caminho já está pavimentado. Os pacotes Snap oficiais do Mozilla Firefox e do Chromium já são distribuídos por padrão no Ubuntu tradicional há anos e operam sob confinamento estrito com estabilidade comprovada.

2. Estações de trabalho para desenvolvedores (Developer Workstations)

À primeira vista, um sistema operacional imutável onde nenhum binário pode alterar livremente o sistema de arquivos parece hostil ao desenvolvimento de software. A resposta da Canonical para esse dilema é combinar o gerenciador de contêineres de sistema e máquinas virtuais LXD com o Canonical Workshop.

O Canonical Workshop utiliza contêineres LXD nos bastidores para criar ambientes de desenvolvimento isolados sem poluir o sistema hospedeiro.

O Canonical Workshop permite instanciar ambientes de desenvolvimento completos e isolados para qualquer linguagem ou toolchain, integrando-se diretamente ao Visual Studio Code por meio de uma extensão dedicada. Seager destacou ainda um motivo emergente para esse isolamento em 2026: a proliferação de agentes autônomos de codificação com IA. Rodar agentes de código dentro de um sandbox LXD via Workshop impede que ferramentas automatizadas tenham acesso irrestrito a chaves SSH, credenciais da nuvem e arquivos pessoais armazenados no sistema hospedeiro.

Atualmente, tanto o Canonical Workshop quanto o VS Code são distribuídos como Snaps em modo classic (que desativa o isolamento estrito e, portanto, não roda nativamente no Ubuntu Core). A equipe já está finalizando a migração do Workshop para confinamento estrito nas próximas semanas e planeja permitir que aplicações gráficas clássicas, pacotes .deb, flatpak ou nix rodem dentro de um Workshop projetando suas janelas de forma transparente no desktop hospedeiro — em uma arquitetura semelhante ao WSLg da Microsoft.

3. Máquinas de jogos e portáteis (Gaming Rigs & Handhelds)

Impulsionada pelo sucesso do Steam Deck e de portáteis como o Lenovo Legion Go, a Canonical quer usar a composição de Snaps para resolver uma dor clássica do gaming no Linux: a necessidade de alternar entre versões experimentais do Mesa, drivers gráficos e revisões do Proton sem correr o risco de corromper o sistema operacional.

Como o pacote Steam Snap já opera sob confinamento estrito, a meta da engenharia é utilizar Content Snaps e Snap Components para empacotar pilhas gráficas e drivers de forma modular e atualizável independentemente do restante do sistema, além de explorar modos de inicialização dedicados que entrem direto na interface de jogos sem carregar uma sessão desktop tradicional.


O papel do Permissions Prompting no confinamento estrito

Um dos maiores obstáculos para qualquer sistema 100% baseado em sandboxing é a experiência do usuário ao lidar com permissões. Muitas vezes, o empacotador de um aplicativo não sabe — ou não deveria decidir sozinho — a quais pastas ou periféricos o software terá acesso na máquina do usuário final.

Para resolver isso sem depender que os desenvolvedores reescrevam seus aplicativos para usar APIs específicas (como ocorre com os portais XDG no Flatpak), a Canonical desenvolveu o Permissions Prompting.

Operando no nível de chamadas de sistema entre o kernel, AppArmor e snapd, o Permissions Prompting intercepta acessos em tempo real mesmo em aplicativos que não usam portais XDG.

Diferente das abordagens convencionais, o sistema de prompting do Ubuntu opera diretamente no nível de chamadas de sistema (syscalls), orquestrando uma comunicação em tempo real entre o kernel Linux, o módulo de segurança AppArmor e o daemon snapd. Quando um aplicativo confinado tenta acessar a câmera, o microfone ou diretórios da pasta pessoal (/home), a chamada é interceptada e uma janela nativa pergunta ao usuário se deseja permitir o acesso apenas naquela sessão ou permanentemente — exatamente como ocorre no Android e no iOS.


O que esperar nos próximos meses e onde acompanhar

A nova equipe já restabeleceu os pipelines internos de compilação e avançou na migração de toda a pilha do projeto do antigo core22 diretamente para o core26 (baseado no Ubuntu 26.04 LTS), em colaboração com os mantenedores do KDE Neon Core.

Nas próximas semanas, a Canonical colocará no ar a infraestrutura de testes contínuos e passará a disponibilizar imagens ISO diárias (daily builds) do Ubuntu Core Desktop para entusiastas e testadores acompanharem a evolução rumo ao lançamento do Ubuntu 27.04, previsto para abril de 2027.